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Review: Concerto de apresentação do álbum de estreia dos UZOHMS, “Má Fogo Te Pegue”

Os Uzohms apresentaram este passado sábado, 5 de maio, o seu álbum “Má Fogo Te Pegue”. Com casa praticamente cheia, o Centro Cultural de Angra do Heroísmo (CCAH) respirava uma sensação de euforia e de relaxamento por poder experienciar um concerto de rock, onde quase tudo se assemelhava ao período pré-covid. Devido ao facto de na Ilha Terceira o número de casos ser praticamente nulo, a cultura terceirense pode dar-se ao luxo artístico de realizar concertos com uma audiência física.

Eram 21h37 quando as luzes se apagaram, dando assim lugar a uma ansiedade sobre o que viria a acontecer. Perante um recinto de plena escuridão, fumo decorativo saía do cenário e as pessoas questionavam-se sobre o que se passaria. O tempo passou e o silêncio permaneceu. Com uma foto da banda projetada, ao lado da capa do seu álbum, existiam 4 pilares que, no palco, refletiam uma misteriosa luz azul.

Passados uns “longos” 2 minutos de total silêncio, a banda subiu ao palco com uma grande seneridade e silêncio, até que esta calma foi interrompida por um assobio. O clima de mistério misturava-se assim com uma certa inquietação. A ansiedade que apoquentava as nossas mentes era pergunta: “E agora?”.

Após afinarem os seus instrumentos, deu-se início ao primeiro tema, onde a guitarra encontrou uma harmonia e equilíbrio com o baixo. Aos poucos, a bateria foi dando sinal de vida, com uma marcação de tempos através do prato ride. Uma certa mistura musical abriu assim as hostes com o tema da banda sonora da “Missão Impossivel”. A grande surpresa foi assim, à semelhança da mítica performance de Tom Cruise no referido filme, o facto de, inesperadamente, descer um jovem do tecto, agarrado por uma corda e um arnês, tendo cumprido a missão de agarrar um CD da banda que se encontrava dentro de uma caixa num pódio.

Foto: Ricardo Laureano

Começando o concerto com um pujante rock, onde pulsavam fortes linhas de baixo, que se entrelaçavam com um melodioso rock, Patrício começou por cantar “Boa noite senhoras e senhores…”. Através de uma das mais populares modas regionais do cancioneiro açoriano, ou seja a charamba, o vocalista deu assim as boas-vindas a todos os que se encontravam presentes neste serão. Patrício quis assim saudar a todos do fundo do coração pois assim o lirismo da canção indicava-o. Foi esta uma ótima forma de iniciar esta noite de rock’n’roll, que prometia imenso.

A banda demonstrava-se à vontade em cima de palco e, aquando do final do primeiro tema, foram recebidos pelo público com uma forte ovação. Seguiu-se a música “Mula Supersónica”. Algo deveras interessante é o facto dos Uzohms indicarem o tema das canções na projecção (ou uma imagem relacionada com o mesmo), que se encontrava na parede atrás do palco. Este tema possui relevantes influências punk rock californiano, com um toque de humorismo e muitos sing-a-longs. A meio do tema, mudou-se a musicalidade do mesmo, entrando assim um reggae roots que nos transportou para os shanty towns jamaicanos. Esta é uma fusão que caíu muito bem porque, como a história o provou, o punk e o reggae encontram denominadores comuns, em termos musicais e ideológicos. Veja-se o caso de Don Letts ou até as lutas sandinistas dos The Clash.

Ao som deste reggae, Patrício agradeceu a todos os que proporcionaram que este evento se realizasse. Agradeceram à CMAH, JF Santa Bárbara, Casa de Povo de Santa Bárbara, RTP Açores, Catarina e Carla do merchandising, ao staff do som, ao público presente, entre outros. Até todas as vacas dos Açores tiveram o seu agradecimento especial. Após estes, cantaram em uníssono “Yohooyhoo”, onde Patrício motivava o público a trautear certas melodias. Uma vez mais, esta foi uma linda recordação da essência do “antigamente” dos concertos pré-pandemia. Esta foi uma excelente continuação musical pois, na verdade, a “Mula Supersónica” ainda continuava. Nas partes que correspondia, o público cantava assim o nome da canção. É curioso notar que a “Mula Supersónica” tenha uma parte tão lenta, ou seja, deparamo-nos assim com uma antítese musical ao contrapormos a velocidade do nome do tema com a morosidade deste bridge. E, na verdade, este facto não estava condenado a durar porque o tema terminou com um refrão punk rock acelerado.

Foto: Ricardo Laureano

A música “A Rita” deu, de seguida, espaço ao segundo tema, onde o vocalista falou dos seus desamores inter-ilhas. Como é comum no verão, os jovens viajam entre as ilhas açorianas e a essência deste tema bebe inspiração de um equívoco de género. O narrador pensava estar a apaixonar-se por uma mulher, quando na verdade, Rita era do mesmo sexo que Patrício. Esta viagem às Velas é uma malha coesa que se materializa num rock musculado. Para além disso, possui repetidas (mas bem enquadradas) passagens e breaks de bateria, que percorrem tarolas e bombos numa espécie de enfeitiçamento musical indiano de uma serpente. O vocalista terminou assim a música lamentando-se que “Ainda por cima a dela era maior do que a minha”. Surpresas da vida! Ele diz que a história é fictícia mas fica no ar a questão: será mesmo?

De seguida, foi-nos apresentados uma girls band, as Thunder Girls. As meninas contaram assim com uma participação especial no tema “Vá brincá qua pombinha páreia”: de acordo com Patrício, é uma expressão direccionada para quem nos tira muito o juízo. Rapidamente, o público ficou ao rubro com a música começando a bater palmas e as Thunder Girl subiram ao palco, realizando uma divertida e muito bem ensaiada coreografia. O clima era de descontracção e notava-se o divertimento tanto no público, como na banda. E, claro está, este referido divertimento materializa-se também nas Thunder Girls, que se vestiam de preto e exibiam na sua t-shirt um logo dos Uzohms.

Foto: Ricardo Laureano

Uma das mais principais características desta banda é a fusão das idiossincrasias terceirenses com os seus elementos musicais cosmopolitas como o punk rock, rock e reggae. Com certeza que esta banda é, com a maior das qualidades, a nossa versão terceirense dos Pestox, RJA, Acromaníacos, Coiratos Violentos, Mamomas Assassinas ou até Ena Pá 2000. As músicas deste agrupamento musical demonstram de forma sociológico-humorística o melhor que o nosso povo tem, sempre com uma ótima disposição. E essa será provavelmente a razão pela qual o público que ali se encontrava ser tão diverso. Desde o mais jovem até ao mais idoso, ninguém fica indiferente a este talento terceirense pois existe, deste modo, uma identificação social com os temas vigentes.

De seguida, foi realizada uma homenagem a um amigo que já não se encontra entre nós. Desta forma, foi-nos mostrada a seriedade do tema, sendo exibida uma fotografia do KIT e, posteriormente, os Uzohms realizaram uma cover de uma música deste mítico terceirense artista. Todos aplaudiram porque o KIT realmente faz falta a todos nós, tanto no seio familiar como no artístico-musical terceirense. Patrício indicou que fisicamente o artista já não se encontra connosco mas que a sua obra para semre ficará. Palavras reais e sábias. Qualquer terceirense que se preze sente isso no seu sangue açoriano. Os versos cantados “Hoje eu sei que a vida é uma passagem” adequaram-se perfeitamente ao momento, emocionado os presentes. Terminou a canção com um pujante “Às vezes para morrer assim, vale a pena nascer”.

Tocaram depois o tema “Difícil” sendo que o videoclipe foi feito no Bangladesh. O vocalista brincou com a situação dizendo que não sabia onde ficava. Em seguida, os Uzohms elucidaram-nos sobre o simbolismo e significado do seu LP. Deste modo, explicaram que o “queimar” da nossa zona de conforto é materializado pelo sofá em chamas, presente na capa do seu álbum. E o fogo presente é a saída desse espaço. A banda pediu-nos assim que pratiquemos essa acção.

Foto: Ricardo Laureano

A música “Difícil” começou assim com uma balada anti-piegas que fala sobre uma mulher exigente. Para Patrício, esta mulher é mais difícil que entrar no site das Finanças, no mês que para fazer o IRS. Entre outras divertidas comparações, percebemos efectivamente o amor e a tentatva de ultrapassar as dificuldades vividas na relação. Como todos sabemos, é só através da aceitação e da ação de trautear o “la lal la la la” deste refrão, que é possível amar. E, assim sendo, o público cantou o referido refrão, enquanto se deixou embalar pelas doces melodias guitarra da terra terceirense, de quinze cordas. Via-se que o público estava a deixar-se pelo concerto, batendo palmas de forma sincronizada com a música e entoando o refrão. O referido ouvia-se perfeitamente no recinto da CCAH, e com certeza, as redondezas deste espaço também puderam deleitar-se ao escutar esta melodia.

Soubemos então que a música “Lapas ao Luar” conta com a participação de Sabrina e Sara. O público aplaudiu a entrada destas meninas que têm por nome AZOHMLETES. Patrício garantiu que íamos gostar da música e o pública sabia que isso era verdade. Esta canção fala-nos de um rapaz terceirense que escreve uma carta à sua apaixonada continental que, aquando da sua chegada aos Açores, irá deparar-se com uma diferente da realidade existente no continente. Será que a nossa apaixonada comeu “lapas ao luar” ou já “bebeu leite da tampa da bilha”? É essa a grande dúvida que apoquente o nosso apaixonado narrador. Entre outras peripécias, as AZOHMLETES iam dançando com os seus braços e entoando coros, principalmente no refrão que é complementado de forma fulcral por estas garotas. Com certeza, esta música não possuiria este sentimento nocturno apaixonado sem a sua presença. Ao terminar esta música, apareceu-nos um tema que nos convidou para uma açorda feita pela avó. “Vem de coração, que eu tenho um cão mas não deixo que ele te morda”.

Foi também realizada uma dedicação à heroína terceirense Brianda Pereira e Patrício questionou como acharíamos que seria esta personagem. Após sair a marca da cerveja artesanal regional, o vocalista apercebeu-se que Brianda era uma mulher “avantajada”. E assim surgiu a inspiração desta música que, ao contrário da anterior, encontrava uma forte e rápida pujança de um puro rock’n’roll português. Com uma batida que encontrava claras influências à la Ramones, o vocalista cuspiu palavras de ordem ao narrar assertivamente como Brianda Pereira enfrentou os espanhóis numa “batalha sangrenta”. Ao terminar a música, o baterista segurou, por uns segundos, o instrumento sucal pau-de-chuva, que deu um interessante e diferente toque a este final.

De seguida, o “Ora Meich”, clássica atenção/grito que os vendedores de sacos de batatas fritas, gamas e doces utilizam para chamar a atenção dos amantes de touradas. O vocalista pediu-nos que cantássemos, apenas dizendo “Ora Meich”. Ora, essa missão foi cumprida com sucesso. Sentiram-se assim as fortes saudades desses momentos de confraternidade que se vivem nas touradas (aparte de todas as políticas e posicionamentos relativamente à tauromaquia).

Foto: Ricardo Laureano

A expressão “Vira Milhe” é usada como o famoso Bota Que Tem, ou seja, está na altura de andar e despachar! Esta expressão deu origem a esta canção, onde no seu início as pessoas aplaudiram, três vezes de forma coordenada, esta história sobre o Zé que vivia cansado e oprimido pela mulher e sogra louca.

Por este momento, é-nos claro que, para além da sua técnica musical, que a alma dos Uzohms tem um forte pulmão na narração de personagens, seja elas fictícias ou não. Queremos sempre saber o que irá acontecer com estes participantes dos seus temas, que se encontram em permanentes situações caricatas. É encontrado assim um perfeito equilíbrio da atenção dos ouvintes do publico, que tanto escutam a história dos versos como cantarolam o refrão. Um sucesso.

Foto: Ricardo Laureano

Depois deste tema, foi-nos apresentada a banda e a sua história. Rui, na guitarra. Diogo Dias na bateria. Rúben no baixo e Patrício na voz. Através de divertidas histórias, fomos conhecendo um pouco o melhor do background deste agrupamento musical.

A canção da Zundapp”, de acordo com os Uzohms, ainda não tem videoclipe por causa de falta de guita e é sobre um “gajo cheio-de-estilo”. Mas é uma canção de amor, foi-nos esclarecido. Vimos assim projetada a foto de uma Zundapp e fomos embalados ao speed de uma moto que percorria uma estrada musical e que contava com um poderoso solo de guitarra.

Live to ride, ride to live. Foi isto que nos sussurrou este solo do Rui. Ao tirarmos o capacete, seguimos na estrada dos Uzhoms enquanto ouvíamos a banda sonora desta Zundapp. Até sentíamos o pôr-do-sol no final desta estrada, enquanto, de acordo com o verso humorístico de Patrício, o público sonhava com o “escape da minha Zundapp”.

Foto: Ricardo Laureano

O tema “Wei Pá” começou com um aquecimento do refrão, onde o vocalista deu a conhecer os versos do refrão “Onde é que moras / Já viste as horas / Tu de quem és?”, sempre com um “Wei Pá” no seu final. “É só isso malta”, confidenciou-nos Patrício antes do Rui começar a tocar uma doce balada musical, que abriria o riff do referido tema. E que terceirense não cumprimenta um amigo com um fervoroso “Wei Pá”? Esta saudação é para todos e todas, sem excepção. “A vida não é dura, não é complicada” foram alguns dos versos que retrataram esta descomplicada vida terceirense. O guitarrista solo prometeu, cumpriu e entregou um grande solo de puro rock. Até Patrício apontou para Rui, dizendo que a “máquina trabalha por isso tem que consumir bem”, fazendo alusão ao vinho que o guitarrista ia bebendo durante os existentes intervalos entre as canções. Com muito estilo, Rui foi assim bebericando, num elegante copo de vinho, uma garrafa de vinho tinto.

A banda decidiu tocar a última música às 23h08, tendo chamado as AZOHMLETES ao palco. Todos aguardavam pela “música mais conhecida”, “John DAmérica”. Talvez pudesse houver uma “dançazinha” e o Patrício pediu-nos que cantássemos o refrão com ele porque a banda sentia muita falta desses momentos. Via-se a cara de felicidade do vocalista porque realmente todos cantaram o refrão, tal como fora pedido anteriormente. Ao olhar pelas caras da multidão, viam-se as cabeças a mexer e até algumas valentes pessoas levantaram-se e dançaram. As máscaras não podiam esconder os sorrisos que ali se encontravam e as vozes que ecoavam no CCAH. Até a parte das “meias brancas” foi cantada em uníssono pela multidão. Antes de terminar a canção, Patrício agradeceu uma vez mais a todos e todas, ficando-se pela promessa que “agente há-de lançar outro”. Subiram assim as Thunder Girls ao palco, cantando um pouco em cima do cenário. A canção terminou assim com algumas notas do hino nacional dos Estados Unidos da América, “Star Spangled Star“.

Ao terminar o concerto, e tal como é usual no final de uma performance de uma peça de teatro, os Uzohms juntaram-se com as AZOHMLETES e as Thunder Girls e todas as pessoas levantaram-se para aplaudir os artistas presentes. Claro que um encore era mais do que necessário após esta maravilhosa performance. Uma vez mais, o instrumento pau-de-chuva marcou presença, mas desta vez no início do tema, que ressoava um clima misterioso, tal como ocorreu no início do concerto. Será que os ciclos acabam por completar-se? Pelo andamento da coisa, queríamos acreditar que sim. Após uma explosão de energia, o início desta canção começou com uma balada mas que rapidamente afastou a ideia que íamos embora do concerto de forma tranquila. A distorção instantaneamente arrancou com um bombo a marcar presença e a assinalar que viria um power rock novamente a estar presente na nossa vida. “Mulher extra… ordinária” é um tema musicalmente punk rock que nos remete ao mundo dos Raimundos e, de uma perspectiva lírica, também encontra semelhanças com a “Feia” dos Tara Perdida.

O concerto teminou às 23h22, abrindo-se assim as luzes e, uma vez, toda a plateia levantou-se para aplaudir este concerto de lançamento do álbum dos Uzohms. A banda abandonou o palco e, de forma ordeira, a multidão foi-se embora do CCAH. A música de fundo tomou lugar e assim terminámos um sábado de puro rock’n’roll na nossa querida Ilha Terceira.

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Etiquetas:, , , , , , , , , , Last modified: Junho 8, 2021