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Aqui não se trocam alhos por Bugalhos!

Os “Bugalhos” lançaram neste equinócio o primeiro álbum de originais, o “Alvorário”. A Portugarte embrulhou-se no seu mundo e conversou com os elementos da banda sobre tradição musical, a importância da Natureza para o grupo e sobre o novo trabalho que chega hoje em formato físico.

Bugalhos

A história dos Bugalhos há muito que estava para ser contada pela Portugarte. Só não foi feito mais cedo porque quanto mais se espremia o folk da banda, mais sumo nos dava a beber.

Este atraso super nutritivo veio gerar uma coincidência, que só hoje reparei. O primeiro disco da banda, Alvorário, que já tinha saído em formato digital no dia 20 de Março, sai hoje para o público em formato físico. As mentiras não precisam de decorar o dia 1 de Abril, quando as histórias já nos trazem acasos. Foi mais um pequeno brilho de uma banda que tem muita luz e que me iluminou cada vez mais, conforme os ia conhecendo e à medida que ia ouvindo a sua música.

Ouvi o novo álbum quatro vezes num curto espaço de tempo. A espremer novamente, gota a gota, e a questionar-me porque ainda não tinha saído nenhuma edição em seis anos de existência do colectivo. Fiz a pergunta à banda, que me respondeu com aquele clássico do “entretanto meteu-se a pandemia”, o que fez atrasar o lançamento em um ano.

Não foi a única razão para o disco sair quando tinha que sair:

“Quando o projecto Bugalhos nasceu, era um grupo aberto. Passaram vários músicos por aqui e fomos explorando a música tradicional. O tempo foi passando e os elementos da banda foram-se fixando.  Ainda hoje os nossos ensaios têm este carácter exploratório, de oficina, de construção de ideias por camadas, de ritmos rápidos com canto lento, o seu contrário, de tempos de compassos não tão comuns na música popular portuguesa, busca rítmica, poética, dicotómica, harmonizações e composições. Fomo-nos conhecendo e encontrando musicalmente, ao mesmo tempo em que procuramos um tipo de som. É muito difícil para nós metermo-nos numa gaveta em específico. E tem a ver com esta procura de linguagem. O Alvorário surgiu naturalmente. O tempo pode parecer estranho, mas para nós parece-nos o certo.”

E assim deve ser. Saramago um dia aconselhou para que “Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo”. Não há tempo perdido enquanto este correr naturalmente. O Alvorário veio na altura certa e chegou cheio de força.

Quem são os Bugalhos?

Bugalhos é um colectivo formado no Porto em 2015 e auto-intitulam-se como “um grupo de músicos de expressão portuguesa – de instrumentos, melodias, ritmos e poesia”. Fixaram-se como quatro elementos, André Oliveira (voz e violino), Blandino (voz, guitarras, concertina e harmónicas), Inês Caetano (voz, cavaquinho e percussões) e Rita Só (percussão e voz).

Esse carácter exploratório está ao relento, para que todos o possam comprovar. O André traz ao seu violino notas escandinavas e influências balcãs, que sempre gostou de estudar. O Blandino é um músico e compositor que estuda cordofones portugueses e que impõe a sua arte compondo trilhas sonoras para algumas companhias de teatro. A Inês aprendeu o repertório da região do Douro Litoral e dinamizou tardes de fado vadio e encontros de adufeiras. A Rita já participou musicalmente nas bandas “Umbigo d’Aço”, “GiraSol”,  “Contrabanda” e “Bira”. Actualmente, integra “Tresmoças”, “Loba Galharda” e “Valentixs”.

Temos, definitivamente, gente que se mexe. Elementos que são capazes de regar o projecto Bugalhos com as suas próprias influências, equilibrando de uma forma harmoniosa o factor exploratório. Não estão vedados na música tradicional que se propõem a descobrir, tal como nos comentam:

Inês: “O objetivo principal dos Bugalhos não é esse. Há vários projectos que se dedicam exclusivamente a divulgar a música tradicional portuguesa, o que não é o caso. Apesar de acharmos importante a sua preservação e divulgação, não é a nossa missão. É importante preservar a cultura Portuguesa, a música tradicional, gostamos de conhecer as nossas origens, mas também é importante fazermos coisas novas, porque ao longo da nossa existência somos influenciados por muitas coisas, e também gostamos de pegar em temas mais actuais.”

Rita: “Acho que usamos, abusamos e queremos saber da música tradicional, porém não estamos preocupados em manter. O tradicional não é estanque e cristalizado.”

É através desta movimentação que encontramos as fontes que molham a sua criação musical. A tradição está lá, mas não mora sozinha. A vizinhança é composta por influências como a Banda do Casaco, Penguin Cafe Orchestra, os Cempés, Pascal Comelade, Uakti, Noir Désir e também, claro, Zeca Afonso, Zé Mário Branco, Fausto, João Lóio ou Sérgio Godinho.

Poesia ao Natural

O colectivo Bugalhos, também se faz de palavras. A poesia que vamos encontrando ao longo do seu trabalho, convoca-nos mais uma vez para um imaginário tradicional, com histórias que se consagraram bem perto de nós. “Descobrir as raízes” tornou-se numa expressão corriqueira, mas continua a demonstrar utilidade para sabermos quem somos e de onde vimos.

Blandino: “Nos Bugalhos há uma busca de som e intenção que vem de uma cultura portuguesa, ibérica e até mediterrânica. Para não sermos uma continuidade do som anglo-americano, não que tenhamos algo contra, mas que tem um domínio mundial e achamos mais interessante este olhar para o perto e de onde vimos. Essa busca tanto é ao nível da poesia, da palavra, como da forma e linguagem musical.”

A verdade é que conforme vamos ouvindo o Alvorário, corremos o risco de nos embrulhar numa teia de reflexões para esclarecimentos actuais. A linguagem e o formato poético aparentemente ancestral, deixam-se também contagiar por questões sociais contemporâneas, assuntos sobre os quais os Bugalhos também gostam de se debruçar.

André: “Para as coisas não morrerem têm que evoluir. É importante transportar aquilo que vem do passado ou que foi criado por alguém no passado, para a realidade de hoje em dia. Esse processo pode ser chamado progresso, e as palavras que são usadas podem ser uma chamada de atenção e sensibilização a nível social. É impossível dissociar uma língua de uma cultura e há que acompanhar ambas e puxar por ambas.”

Bugalhos - Rita na bateria

São também estas palavras que pintam, muitas vezes, a banda portuense em tons de verde, com um desenvolvimento artístico muitas vezes ligado de forma directa à terra e à Natureza.

Inês: “Todos os elementos dos Bugalhos têm uma forte relação com a Natureza, daí o nome da banda. Na maior parte dos nossos temas há uma referência à terra, aos animais, às plantas e árvores. Acontece naturalmente. A música tem o poder de nos transportar para outros lugares, e nós vamos para os lugares que mais apreciamos, ou que gostaríamos de apreciar, dando importância à preservação da Natureza.”

André: “Isso começa na própria origem da música tradicional: as metáforas utilizadas, os materiais usados para a construção de instrumentos, as atmosferas ligadas ao trabalho e à terra.”

Porém, apesar desta conexão com a terra e com o natural, dissuadimos os que imaginam uma música e uma estética em nos leve a pensar em bosques com fadas e duendes. Não é essa a mensagem que chega, muito pelo contrário. Há algo cru que estala na poesia e na sonoridade dos Bugalhos, muito “terra à terra” e que mostra a ostentação da Natureza na sua simplicidade. Este relacionamento é muito honesto, mesmo que para isso tenhamos que passar por várias emoções quando ouvimos o Alvorário. Há momentos de aconchego, de alegria, de tensão, de tristeza e de tudo a que temos direito.

Alvorário, o primeiro disco dos Bugalhos

O factor exploratório que referimos acima define a forma de como a casa deste disco está cimentada. Há muitas interações entre os instrumentos, e fórmulas que foram experimentadas de acordo com o tal grupo aberto que originou os Bugalhos. Os informáticos chamam-lhe open source. Na música, é o que leva à criação de uma forma natural. Quando estamos sujeitos e permeáveis a novos conjuntos de ideias, facilita lançar um trabalho como o Alvorário.

“Este álbum começou a ser gravado antes da pandemia e tornou-se um convite a olharmos as dicotomias naturais que tão marcadas estão por estes dias: o encanto no triste, o ritmo rápido e a voz lenta, a beleza nas imperfeições, o humor na seriedade. Um conjunto de albas que nos chega no equinócio como um novo começo, como instrumento contador de histórias: humanas, realistas, empáticas, cíclicas.”

Com todas estas ideias afuniladas, os Bugalhos acabaram por criar algo com bastante identidade, começando logo pelo timbre das vozes, feminina e masculina, que se entrelaça de uma forma muito própria.

A faixa Verdade, não me deixa mentir. As vozes da Inês e do Blandino deslizam com o violino, com tempos que por vezes brincam com a matemática musical. Ora vão de momentos quase líricos, até à spoken word, sem que para isso tenha que existir desconforto.

Está é uma das minhas músicas preferidas do álbum, que, como a Rita nos lembra, fala “do retorno ao emocional e ao natural, e um desconforto com o citadino racional.”

Também não quero de deixar de referir o tema “De não saber o que me espera”, uma música tensa e envolvente; “Xico-Xica“, onde o humor e a festa estão latentes; e a última música do disco, “Carvalho Grande”, com uma mensagem optimista que retrata muito bem a graciosidade da banda.

É um disco bastante verdadeiro e isso é marcado pela forma como foi gravado:

“O Alvorário é o projecto de seis pessoas, de equipa e de amizade: os quatro músicos; a captação, mistura e masterização de João Ramoa e a imagem (cada música um espaço imagético) de Catarina Santos. A gravação do Alvorário foi feita em live session, pois queríamos esta sensação verdadeira e de proximidade com o que fazemos em concerto. Foi muito importante para nós esta ideia. Estava planeado fazermos uma terceira sessão de gravação, mas a chegada da pandemia não o permitiu. Acabámos por fazer gravações adicionais na garagem da casa do João Ramoa, quando assim foi possível. Então há no álbum esta sonoridade, onde o microfone de um era de todos. Gravar em conjunto, a olhar nos olhos e a ver respirações foi importante para nós. Um álbum real era o que queríamos fazer e achamos que o conseguimos.”

Sim, conseguiram. Agora venham de lá os concertos, para o podermos bailar, como nos é merecido.

O disco pode ser ouvido na íntegra aqui.



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Etiquetas:, , Last modified: Abril 21, 2021