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Cassulle é o teu lado mais negro do techno

Cassulle é David Falcão, alentejano de Montemor-o-Novo, que faz do techno um sentimento e uma viagem interna. Lançou “Dona”, em Janeiro deste ano, o primeiro EP em formato físico do produtor.

Cassulle

“A coisa aqui está preta”, dizia Chico Buarque a um amigo que estava exilado em Lisboa em 1976. Ricon Sapiência, o rapper também brasileiro, usou a mesma expressão, mas com uma conotação positiva (“A coisa tá preta, ó que legal”), num rasgo de negritude em que preto leva a questões raciais e políticas.

Vou seguir o embalo das interpretações e vou trazer a expressão para o techno. Porque se a coisa estiver preta para esses lados, ora aproveita e faz boa viagem pelo pedacinho mais obscuro desta vertente. Pode ser que encontres um menu de emoções degustativas e que te dê uma experiência diferente do que estás habituado ou habituada.

Hoje o prato do dia é Cassulle.

David Falcão tem 26 anos e começou a torcer o pepino da música electrónica ainda muito novo. Em 2017 lançou a sua primeira produção como Cassule e neste momento já conta com 3 EP’s e muitas participações em colectâneas para editoras nacionais e internacionais, sempre com um selo muito longe do que é comercial.

A verdade é que o próprio conceito de underground tem deixado de estar marginanalizado, misturando-se com o que se vende e cruzando limites que são definidos pelos gostos e recepções de cada um. É muito fácil dizer que certas artes pertencem a um submundo cultural, quando na verdade estão lá para fazer o mesmo que as outras todas: chegar a um número máximo de pessoas.

É uma avaliação muito díspar, mas eu não tenho dúvidas em catalogar a música de Cassulle como o verdadeiro uderground. Não por razões comerciais, mas por uma questão física e de espaço. No sentido literal da palavra, seria precisamente numa cave escura, de paredes suadas de tags e com meia dúzia de marmanjos, que me apetece ouvir este techno obscuro e hipnotizante.

“Por influência da natureza das minhas emoções”

Não gosto de deambular e tirar certezas na idade das pessoas. Mas a verdade é que não é fácil encontrar produtores tão novos como Cassulle que se dediquem a fabricar uma electrónica que se preocupa com princípios menos bailáveis. Fiquei curioso e perguntei ao artista como tinha chegado a este mundo.

“Posso dizer que é tudo por influência das minhas raízes musicais que se foram formando ao longo do tempo, sempre por influência da natureza das minhas emoções e o que eu percecionava das mesmas. Era atraído ao sentimento mesmo sem o perceber, mais ou menos o que acontece comigo no techno. Procurei algo sempre diferente do que outra pessoa sente ou o que é normal sentir. Porque a vida é isso: o que vives. A minha história é diferente da tua.”

Ao debruçar-me no trabalho do David, ao estudar um pouco mais sobre esta vertente do techno, dei por mim a pensar que não há arte que se livra de uma secção mais erudita. Sorri para as paredes de forma irónica, a lembrar-me do pagode das dezenas de festas de techno onde já estive. A viagem não é igual. As sensações são ímpares e é precisamente por isso que a música tem a dimensão que tem na vida de todos. Porque num só sub-estilo da música electrónica, o techno, podemos encontrar variadíssimas razões para o ouvir. A música não deveria ser catalogada de forma técnica – deveria ser classificada conforme as emoções que sentimos ao ouvi-la.

Esta mensagem é um ponto importante no trabalho de Cassulle. São músicas bastante electrizantes, que podem ser expansivas, mas por outro lado tem um contributo bastante introspectivo e gravítico. Uma viagem longa, mas para dentro de nós.

Perguntei ao David o que é que ele tenta transmitir para o dance floor:

“Desejo transmitir o estalar do mental de cada um, que desperte a vontade de explorar o que vemos dentro de nós, não como nos vêm. Quero que as pessoas percam as correntes e a percepção do sentido da visão, fechem os olhos e expressem com o corpo. Isso chega. Tornar a audição como o sentido principal nesse momento. Descartar a visão. Fechar a pessoa ao mesmo tempo que ela se abre em si mesma.  As emoções são sempre individuais mas a experiência da viagem na pista tem que ser quase colectiva, de cada um viajar na sua própria bolha mas ao mesmo tempo não.”

Novo EP de Cassulle: “Dona”

O ano começou muito bem para Cassulle, que lançou em Janeiro o primeiro EP, que além de estar disponível digitalmente, é possível obter em formato físico. “Dona” foi lançado pela editora lisboeta Kepler e pode ser obtido através do seu bandcamp.

É um trabalho com 4 faixas, com um teor bastante hipnótico causado por uma base de ritmos repetitivos, que podemos considerar quase tribais. Está cheio de texturas muito palpáveis e bem trabalhadas.

Destaco a faixa “Dona do Tempo”, cheia de momentos em que a música nos toca e quase incomoda, num bom sentido. Faz-me sentir embrulhado e enrugado, como se precisasse daquele momento só para mim.

Além deste novo lançamento, Cassulle já tinha lançado o EP Phronesis (Detox Electronics) em 2020 e Crisálida (Primitive State Records) em 2018. Ambos estes projectos explodem nos ritmos, em comparação ao seu mais recente trabalho. Um som e uma cadência mais frenética e constante, propaga-se melhor em ambientes dançáveis.

O seu percurso, ainda que curto, já se estende a contribuições com vários colectivos. Participou em colectâneas V.A., para editoras como a Elberc e a Obscure Sorrows Records. Ambos estes trabalhos foram produzidos com uma musicalidade muito inteligente, a roçar o ambient e o IDM, que vale a pena ouvir.

Neste momento Cassulle está envolvido com o colectivo KRAD, uma equipa de Lisboa bem formada e já com uma colecção recheada de podcasts que podem ser encontrados no soundcloud.

Quanto a projectos para o futuro:

“Não me considero impaciente. Funciono sem prazos. Sem pressão sobre o processo criativo. E isso para mim é tudo. Os prazos que são postos, sou eu que os meto a mim mesmo. E isso para mim é perfeito para a fase de aprendizagem que me encontro.”

Ficamos à espera dessas aprendizagens!


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Etiquetas:, , , Last modified: Março 22, 2021