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Magupi: Entre África e a Música Electrónica

A música de Magupi orienta-se entre movimentos tribais e exóticos, modernizado pelas novas tendências do chill out psicadélico. Bass vindo do Dub, sintetizadores que acompanham os ritmos e melodias africanas, e uma viagem que se espera bonita, cheia de cores para mostrar.

Magupi

Mia Couto decretou que “Quem vive num labirinto, tem fome de caminhos”. A mim custa-me o coração, questionar um decorador de palavras como o escritor moçambicano, mas acho que a ânsia de escolhas pode ser determinada pela leveza da nossa evolução. Não precisamos de estar perdidos para ter fome de caminhos. A prova disso está em Márcio Pinto, autor do seu próprio alter-ego, Magupi, que percorreu uma série de encruzilhadas artísticas, que vieram dar ao seu projecto a solo.

A verdade é que o Márcio se foi pondo a jeito para que as suas escolhas se convertessem em boas novas. Com 20 anos começou a estudar percussão clássica, na Escola Superior de Música no Porto. Logo nesta altura, as expectativas abraçaram as suas próprias paixões, com um convite para integrar um colectivo de amantes da música e dança africana, os Semente/Escola Sementinha.

“Toda essa experiência com os Semente fez de mim muito o que sou hoje, pelo seu elo de ligação com os mais importantes passos no meu percurso musical”.

E se África dissemina os melhores ritmos do mundo, Márcio Pinto sente-os directamente no seu batimento cardíaco. Foi esse sentimento que apontou o leme para Burkina Faso, onde desenvolveu aprendizagens no Balafon, um xilofone característico e tradicional do Oeste Africano.

“Em Burkina Fasso, onde tive uma temporada de êxtase total de uma forma alucinante, fez-me rapidamente perceber que sim, que era esse estado de fazer música que eu queria. Para mim (viajar é) a melhor das escolas, a mais genuína e a mais respeitosa e que sempre me intensificou muito, através das inspirações trazidas dessas viagens.

A linguagem, a comida, a arquitetura, etc, são grandes diferenças que distinguem as culturas. Já há muitos anos que é possível sermos capazes de aprender tudo isto sem ter que ir ao local original. A Música também se ensina da mesma forma, e sim, também se aprende ao ponto de poder representá-la, mas e o resto? Para quem alguma vez já sentiu a Música sabe que não são apenas fórmulas, padrões, movimentos, mas sim também a existência da contextualização, o seu propósito. Toda esta emoção não está contida numa escola/academia, este algo mais está lá, onde é a raíz dessa expressão.”

A Fome de Caminhos

A sala de ensaios foi uma casa cheia de oportunidades para o Márcio. Com os Semente, partilhava este espaço com os icónicos OliveTreeDance, banda de transe acústico, onde surgiu a oportunidade de integrar como um dos elementos em 2006. Agarrado desta forma ao movimento da electrónica psicadélica, rumou em direcção a festivais de todo o mundo e foi absorvendo uma cultura que ainda está muito presente na musicalidade de Magupi.

Mais tarde, como um fã que realiza um sonho, abre-se uma nova janela com vista para uma das maiores bandas de cultura africana em Portugal, os Terrakota. Foi baterista deste colectivo entre 2014 e 2015.

“Ambos os projetos, Semente e Olivetreedance, rodavam os vários festivais em Portugal, que me levavam a conhecer grandes bandas e grandes artistas. Uma delas foi referência desde sempre e que fui, sou e serei maior fã, os Terrakota. Uma grande família apaixonada por África. Uma paixão vivida já intensamente por mim que me tornou novo membro da banda”.

A absorção de ambientes a que esteve exposto foi inevitável. Com estas ferramentas foi construindo o seu próprio caminho em direcção às pistas de dança, com o desenvolvimento do projecto Magupi, desde 2017. Os sons africanos do Balafon estão no centro da sua arte, acompanhado por batidas e melodias sonorizadas pela música electrónica. Um conceito bastante original, retirado de um agregado de mundos em que o autor foi vivendo.

“O ano 2020, até ver benefícios”

Parece velha, a história de 2020. Da chapada que deu aos artistas, que, desorientados, não tiveram outra hipótese senão torná-lo melhor.

A viver em Lisboa, o Márcio tinha a vida bem desenhada. Organizava e tocava em eventos semanalmente, vivia numa casa às suas medidas, fazia vida de estúdio e tinha tempo para usar. Tudo isto se evaporou. A chapada foi tão grande que foi parar ao Norte, a Marco de Canaveses, à sua terra natal.

“Após um tempo, aceitei que afinal seria assim. Entrei novamente em força nas produções, e desta vez a full time, no campo em vez da cidade, livre de ambientes tóxicos e viciados”.

Resultou. Só no ano de 2020 produziu 3 EPs, a juntar a outro que encaixou no ano de 2019. Participou em featurings com artistas honrosos como Nicola Cruz, ou os portugueses Zen Baboon. Mais recentemente fez uma remistura para o argentino Barrio Lindo, que adornou a faixa Floating Ñoki com os sons bem fluídos do seu Balafon.

Entre um Balafon e os Sintetizadores

A música de Magupi orienta-se entre movimentos tribais e exóticos, modernizado pelas novas tendências do chill out psicadélico. Bass vindo do Dub, sintetizadores que acompanham os ritmos e melodias africanas,  e uma viagem que se espera bonita, cheia de cores para mostrar.

Pela editora de Berlim, Shika Shika, editou a sua primeira dupla de originais, com o EP Botanas. Um deles é a faixa O Ritual, que convoca um som bastante cru e espacial, badalado pelo instrumento de cordas oriundo da Turquia, o Saz, demonstrando uma atitude confortavelmente étnica.

No ano pandémico de 2020, saíram para o público os EP’s Shine Bright (Sururu Records), Ritual-Remixes (Sururu Records) e o mais recente Crazy About It, lançado pela editora portuense, Ohxalá Records.

Mesmo num curto espaço de tempo, o trabalho de Márcio Pinto já espelha consistência na sua identidade, mas também irreverência de quem tem muito para experimentar. Os pontos que foi colectando com a quantidade massiva de traquejo musical que lhe foi passando pelas mãos, servem bem o projecto Magupi.

Dentro desta obra, vejo-me obrigado em tropeçar em dois temas, que se tornaram os meus favoritos: Ayabá Aymoré e o Shine Bright.

Na primeira há um sample de um saxofone muito saudoso, de mãos dadas com uma musicalidade étnica característica do autor. Nesta música há um percurso emocional entre o nostálgico e alguma tensão que traz raízes hipnóticas.

Em Shine Bright, os baixos do Dub fazem-me cócegas nas partes mais bonitas da alma e vai havendo uma cedência à distorção psicadélica. Finaliza com ritmos cadentes e dançantes que ficam muito bem distribuídos pelo groove.

Se quiseres saber mais do artista, tens aqui uma mão cheia de links onde podes ver mais sobre o trabalho do Márcio.


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Etiquetas:, , , Last modified: Janeiro 20, 2021