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Deus, Pátria e Família | Livro Mata-Ratos | Cap. 20

Sejam bem-vindos/as ao Capítulo XX do livro dos Mata-Ratos.

Mata-Ratos

Sejam bem-vindos/as ao Capítulo XX do livro dos Mata-Ratos. Estou muito feliz de o feedback, até ao dia de hoje, ter sido muito positivo. Vamos lá ver se eu não arruino isto tudo com o décimo none conto, “Deus, Pátria e Família”! Dizem que os tornados ciclónicos literários são muito comuns. Eu não sei, para dizer a verdade. E espero que não me apareça nenhum esta semana!

Como há sempre a (grande) probabilidade de haver pessoas que não leram os primeiros capítulos, ou que não têm a mínima ideia de que estou a falar.

Assim sendo, deixo abaixo alguns links: uma introdução e contextualização deste livro, que nunca chegou a ser editado, e também os primeiros capítulos! Recomenda-se a leitura!

Contextualização:

Capítulos:


Como funciona o livro?

Aviso desde já que esta não é uma biografia da banda.

Este livro são pequenos contos literários e fantasiosos, baseados nas canções dos Mata-Ratos. Este projecto, está dividido por vários capítulos, que serão publicados a cada sexta-feira.

Cada capítulo é narrado de forma independente, sempre na primeira pessoa de um diferente personagem. Existe fio condutor que, aos poucos, é criado entre os diferentes 23 contos. Por fim, é dado um sentido comum a todos.

Ou seja, entre as diferentes histórias existe um universo “mata-ratiano”, que é descortinado de forma lenta mas coesa, a meu ver. Neste caso, este “Cães de Cristo” (o então título do livro, que foi o primeiro nome dos Mata-Ratos), cada acontecimento é um mundo por si só e os personagens vivem todos no mesmo universo, embora em espaços distintos.

Não quis limitar-te a um só género de narrativo. Cada capítulo é único por si só. Admito que a leitura, ao início, possa ser um pouco confusa e difícil de interpretar. Mas, aos poucos, vai-se entranhando. Tal como a música dos Mata-Ratos, há escritos agressivos, sexuais, outros divertidos, sarcásticos e até ironias que, à primeira impressão, possam fazer pouco sentido.

Escolhi assim escrever textos “comuns”, passando por poesia, manifestos, telegramas, entre outras metamorfoses musico-literárias.

Gosto muito da ideia de um universo literário. E ainda mais, de um universo literário punk.


Aviso! (Importante)

Tal como as letras dos Mata-Ratos, algumas partes dos textos possam parecer “vulgares” e indecentes. Mas para quem conhece o grupo, e principalmente o seu conteúdo lírico, isto não é nada de novo.

Assim sendo, é tido como como princípio comum que o conteúdo lírico “obsceno” dos Mata-Ratos não tem como intenção ofender ninguém mas sim chamar à atenção a séria questão de problemas sociais mais abrangentes, através de uma linguagem mais forte e polémica. E, desta forma, os textos literários deste livro baseiam-se nesse mesmo género de canções. Por consequência, os contos também possuem uma linguagem robusta, à semelhança do conteúdo literário do grupo lisboeta.

Caso não estejas de acordo com este tipo de expressão, e conteúdo lírico, recomenda-se que não prossigas à leitura deste artigo e capítulo.


Resumo e Contextualização

Para ajudar um pouco à compreensão de cada capítulo, decidi incluir uma pequena explicação sobre o contexto onde o personagem se encontra, a música na qual o capítulo foi baseado e a respectiva letra. O livro conta com 23 capítulos.

O I Capítulo encontra a sua essência na música “És um homem ou és um rato?” (Ataque Sonoro, 2004). Como podemos ver na capa do álbum, existem três personagens: uma chelsea skinhead, um street punk e um terceiro tipo, que não nos é possível descortinar a sua identidade e, deste modo, houve uma confrontação entre 3 sujeitos.

O capítulo II encontra a narração realizada pelo famoso personagem “Rei da Noite” (álbum “És um homem ou és um Rato?”, Ataque Sonoro, 2004). Um dos personagens do II Capítulo cruza-se com este colega da Night.

Neste III capítulo, encontramos um texto baseado no famoso tema “Armando É Um Comando” (“Rock Radioactivo”, EMI, 1990). Desta forma, entendemos que o narrador do conto é o personagem “Armando” (antes de ingressar na vida militar). Este encontrou-se com o “Rei da Noite” (“És um homem ou és um rato?”, Ataque Sonoro, 2004) no segundo capítulo, tendo sido o mesmo o comprador da droga que o “Rei” lhe providenciou.

Depois do IV Capítulo, “Putas ao Poder“, a linha narrativa musical dos infames Mata-Ratos apresenta-nos assim o V Capítulo e o mundo da obscenidade carnal do Zulmiro Pascoal. Para quem desconhece, ele é um tarado sexual e vem apresentar-nos o partido ideal: CCM. É-nos assim dado a conhecer o Manifesto político que o Secretário-Geral do partido CCM escreveu em 1990 e, passados 30 anos, veio finalmente à tona! Será que Zulmiro Pascoal tem possibilidades de ganhar as eleições nacionais este ano?

No VI Capítulo, é-nos apresentando um novo personagem da Musgueira, cuja identidade não nos é descortinada, e que se encontra revoltado com a situação política vigente.

Chegando ao VII Capítulo, encontramos uma inspiração literária na fusão dos temas “Traumatismo Ucraniano” (“Novos Hinos Para A Mocidade Portuguesa”, Rastilho Records, 2007) e “Inocente O Doente” (“Mata-Ratos” demo cassete, Edição de Autor, 1988). Este personagem, tal como relata a canção, imigrou da Ucrânia a Portugal mas a sua vida não melhorou. Na verdade, é-nos dada a impressão que piorou.

Chegamos ao VIII Capítulo. Retratando o estereótipo do Zé Povinho de uma forma irónica e sarcástica, os Mata-Ratos apresentam-nos “Uma Trilogia Portuguesa“. Esta é uma canção inspirado no folclore português e possui uma crítica político-social relativamente ao comportamento erróneo da nação portuguesa. O nosso personagem de hoje é a caricatura desse Zé Povinho, que admira os 3 “F” da ditadura de Salazar: Fado, Futebol e Fátima. Para além de possuir tendências racistas e xenófobas (o narrador odeia ucranianos), é também um golpeador de mulheres. Enfim, o retrato de uma triste realidade portuguesa.

O XIX não é para crentes e a leitura não é propriamente fácil. Inspirada no tema “Gangue das Batinas“, encontramos como narrador deste conto um bispo católico. Este conhece a personagem principal do conto “Putas ao Poder“, e convida-a a confessar-se. Descobrimos assim que esta trabalhadora do sexo tem apenas 15 anos e que, ao entrar na Igreja, é tida como vítima de um assédio sexual. Tal como a canção dos Mata-Ratos diz, estas Igrejas do “Gangue das Batinas” são um negócio e só se importam com a lei do “Santo Bacanal“.

O X capítulo encontra a inspiração numa fusão dos temas “Terrorista Urbano” e “Amor Eterno“. Como podemos ver, o caos está a disseminar-se e começa a aparecer um cansaço na sociedade. Por causa disso, aparece-nos um novo personagem que planeia um ataque terrorista. Ou de um amor eterno? Com o tempo, saberemos!

No XI capítulo, descobrimos que o comando Armando está a sofrer e escreve uma carta à sua amada, Arminda. O conto encontra-se narrado na primeira pessoa, ou seja pelo Armando, em forma de carta (antiquado, sabemos, mas em 1990 – altura em que foi escrita a canção – não havia ainda e-mail e muito menos Facebook!).

Chegando ao XII capítulo, nota-se a aglomeração de alguns indivíduos que, de uma forma informal ou formal (ainda não se sabe), protestam contra o poder vigente! Esta associação auto denomina-se “ZYCLON”. Porque será? E em que acreditam? Podemos reparar que, aos poucos, se vai instalando uma desestabilidade social neste universo “Mata-Ratiano”.

Este XIII capítulo fala-nos de um amor perdido, perdido na Albânia. O nosso narrador encontra-se deveras enamorado da “Cabra da Montanha”: este é um conto inspirado na canção “Junto Para Sempre“. Este sujeito percorreu o mundo para a encontrar e está farto dos políticos do ZYCLON (“cheira-lhe” a problemas, pun intended!) e também já está cansado dos “ratos” (referente à canção “Ratos” do álbum “Rock Radioactivo).

Estamos a chegar agora a algum lado. Lembram-se do gajo que levou nos cornos, no capítulo I? Pois bem, ele está de volta! Está cansado de ser um “Escravo do sistema” e, neste capítulo XIV, o sujeito vai marcar presença num reunião secreta. Este conto também manda umas dicas sobre a canção “Dança com a merda“.

Amigos dos infames! Lembram-se do nosso amigo Armando, que foi para a tropa num homem se tornar? Ele está de volta e escreveu um telegrama à sua amada, a Arminda. Em 1990 (quando os Mata-Ratos editaram o “Rock Radioactivo”) ainda não havia WhatsAp por isso o Armando teve que ser velha escola e ir aos correios do quartel para expressar o âmago do seu ser! (estamos muito poéticos hoje, ora pois!).

No final do “Capítulo XIV” apareceu-nos, no final do conto, um sujeito na reunião secreta revolucionária. Na altura, ficou o cliff hanger mas um gajo não ia deixar os fãs dos infames na mão! Então, neste “Capítulo XVI”, finalmente chegou o famoso personagem! Ele apresenta-se e explica as razões do seu exílio e o que fará em seguida! A ver vamos!

Este “Capítulo XVII” demonstra-nos as tensões entre o grupo RATOS e o ZYCLON e CCM. Começam a surgir problemas socio-políticos que se reflectirão.

Estamos agora no “Capítulo XVIII” e a chegar ao fim do livro. E agora já há uma crise. Pior do que isso! No lugar onde sempre houve paz, há uma situação de calamidade total: “Napalm na Rua Sésamo”. Mas quem, como e porquê? O que nos levou a situação?

Depois do napalm, o rock. O Rock Radioactivo chegou! E como reagem as pesoas? Ou as “quase-pessoas”? Porquê que “Caiu a bomba atómica acabou a felicidade” e então vamos a descobrir o que passou neste Capítulo XIX!

O Capítulo XX já vai marcando o final desta saga dos infames! Baseado na canção “Deus, Pátria e Família“, vemos que os mutantes (do capítulo anterior, “Rock Radioactivo“) ficam muito surpreendidos com a chegada desta entidade divina! Mas afinal aonde isto nos levará?


E agora?

Este é o vigésimo capítulo do livro, inspirado na música “Deus, Pátria e Família“, e estou ainda a ajustar e moldar a forma como seguir-se-ão os restantes. Deixa-me comentar-te que a introdução ao livro é tão extensa quanto o próprio o capítulo em si. Isto deve-se ao facto que, na minha humilde opinião, o contexto e explicação destes pequenos contos são uma parte inerente e crucial do livro.

A meu ver, no equilibrio geral das coisas, a contextualização encontra o mesmo grau de importância que os capítulos. Um não pode co-existir sem o outro, de forma a prevalecer um total entedimento da escrita “mata-ratiana“.


Música “Deus, Pátria e Família”


Letra “Deus, Pátria e Família”

E no altar de joelhos
Peço a Deus com alegria
Que salve a nossa pátria
E de saúde à família
Já agora um mercedes
Uns trocos pro garrafão
E que a merda dos espanhóis
Fiquem lá por onde estão
E que volte o Ultramar tatuado no meu braço
E que o senhor encubra toda a merda que eu faço

Peço a Deus pela patria, que ele salve o meu lar
E que ele me proteja enquanto ando a roubar
Peço a deus pela familia mais filhos pra trabalhar
E que ele me de força, força e mais força para os espancar
Eu cá sou bom português
Um eleito do senhor
Bebo o sangue de Deus
Com todo o meu fervor
Se for de boa colheita
Até faço transfusão
E se não chegam as putas
Enrrabo o puto e o cão
E só ele me perdoa quando bato na mulher
Recebo subornos na obra ou vou ao alterne foder

Peço a Deus pela patria, que ele salve o meu lar
E que ele me proteja enquanto ando a roubar
Peço a Deus pela família mais filhos pra trabalhar
E que ele me dê força, força e mais força para os espancar


CAP XIX – DEUS, PÁTRIA E FAMÍLIA

E quem disse que o milagre de Fátima foi o último milagre de Portugal? Foi agora mesmo que assisti. Vindo dos céus.

O Deus apareceu.

Ele, o primeiro e único insubstituível. Nunca se viu nada assim.

O branco das suas vestes acompanha a pureza dos céus que desce. Esperava por tudo. Pela minha satisfação pessoal, que a minha sede de vingança tivesse saciada. Que os meus pecados fossem expiados pelas minhas acções. Tudo, tudo, menos isto. Ele aos poucos desceu do reino os céus ao som de uma orquestra sinfônica.

Mas foi aí que tudo mudou.

O Deus olhou para os jovens mutantes, enquanto estes se agrupavam à sua volta e esperou. Esperou horas, até que todos desta cidade estivessem à sua volta. Este é um cenário inesquecível, mítico e único.

O Deus no meio da cidade se encontra, enquanto os mutantes foram um círculo à sua volta. Sentados e pacíficos.

Mas o que é que está a acontecer?

Fim.


Publicarei cada conto uma vez por semana no Portugarte, à sexta-feira, em honra à música “Bezana Ska“, onde o pessoal sai precisamente nesse dia para embededar-se e divertir-se.

A ideia deste livro é precisamente esta. Criar uma bebedeira colectiva literária, onde somos imergidos pelo álcool das boémias palavras e música dos Mata-Ratos. Vemo-nos na tasca! Até breve compas!


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Etiquetas:, , , , , , , Last modified: Novembro 20, 2020