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:PAPERCUTZ: novo albúm “King Ruiner” | Entrevista

Bruno Miguel, mentor e formador dos :PAPERCUTZ, falou ao Portugarte sobre o seu novo albúm, “King Ruiner”.

:papercutz

Há muito tempo que não tínhamos novidades de Bruno Miguel, produtor com selo nacional, que nos brindou em Março de 2020 com o álbum “King Ruiner”. Falamos do projecto :PAPERCUTZ, que publicou este longa-duração pela prestigiada editora Sound of a Playground.

Os 7 anos que acompanharam o intervalo desde o último “The Blur Between Us” (2013), resultaram numa musicalidade fresca e contemporânea, com a electrónica de Bruno Miguel a encontrar um pop negro e exótico que representa bem um projecto cada vez mais além fronteiras. O disco foi gravado entre o Porto, NYC, Hamburgo e Tóquio e traz consigo vozes femininas, como a portuguesa Catarina Miranda, conhecida pelo seu trabalho como Emmy Curl, além de Ferri, uma das revelações de 2019 do Japão, e a alemã Lia Bilinski.

O PORTUGARTE foi ter com o Bruno Miguel para ele nos contar sobre os 4 cantos do seu novo albúm, “King Ruiner”, que nos revelou que em tempos de um futuro incerto, o mais certo é reunir condições para começar a trabalhar num novo disco.

:PAPERCUTZ é um dos projectos mais internacionais que temos na electrónica portuguesa actual. Não só a nível de tours e de gigs, mas também da própria concepção (e confecção) do “King Ruiner” (2020), visto que foi gravado entre o Porto, Hamburgo, NYC e Tóquio.

Tendo em conta que não é muito normal a electrónica portuguesa aventurar-se pelo mundo fora, como interpretas esta tua experiência musical internacional, considerando o panorama musical nacional?

A verdade é que desde o início do projecto que sempre me pareceu natural apostar num mercado para além das nossas fronteiras. Aliás o primeiro trabalho editado foi lançado por uma editora no Canadá e alguns dos primeiros concertos que demos foram no Reino Unido.

Seria um pouco injusto aclamar que no passado tal poderia acontecer porque na verdade a Internet foi extremamente útil, nem que fosse na comunicação, mas continuo a achar que muitos mais grupos e produtores hoje em dia deveriam apostar em dois públicos sempre, nacional e internacional, e isso implica, como deves imaginar, um enorme esforço, porque para chegar a estes, aí sim a Web não é suficiente.

Eu penso que isso foi possível porque o projecto sempre se destacou por alguma modernidade e uma sonoridade própria, a música que fazemos tanto é ouvida hoje em dia em Portugal como por exemplo Japão, por um pouco surreal que isso possa parecer para um projecto que começa num pequeno quarto.

Sempre considerei Portugal um ponto de partida e não um fim em si mesmo.

Além do mais a experiência internacional foi para mim vital de forma a entender o que tantos outros músicos profissionais passam e essa realidade acaba por moldar a própria música.

Sempre considerei Portugal um ponto de partida e não um fim em si mesmo. E assim foi, por exemplo, que este trabalho mais recente de nome ‘King Ruiner’ é em parte inspirado nessas viagens e experiências e como tal penso que faria todo sentido que as suas gravações vivessem da mesma experiência deslocalizada.

Os anos de 2018 e 2019 foram recheados de tours pela Europa. Atendendo a actual situação vigente do COVID-19, e a consequente crise na indústria cultural portuguesa, como crês que será a tua vivência artística, em termos de performance, e a recepção do público no concerto no CCB no próximo dia 26 de Setembro e no Auditório CCOP a 3 de Outubro?

Claramente os concertos vão diminuir e por agora não consideramos datas no estrangeiro, mas não paramos de tocar ao vivo. Aliás temos projectado fazer os concertos crescer de novo (durante o Verão tocamos num formato mais limitado) culminando nessas datas que conta com uma revisão do nosso catálogo e artistas convidados.

De momento o nosso foco é sem dúvida nacional. Não faria sentido de outra forma que não perceber os tempos actuais e nos ajustarmos a tal. Este trabalho tem tido felizmente uma boa aceitação por cá mas também ao mesmo tempo temos que lidar com preocupações de saúde do público, algo que está bem presente nos espaços que vamos actuar, e como tal, apenas posso esperar que as pessoas venham aos concerto e possam presenciar ao vivo estas músicas que lhes tem feito alguma companhia nos últimos tempos.

Relativo a um futuro mais longo, penso ter sido dos primeiros músicos nacionais a contemplar as consequências da epidemia na China e mais tarde uma pandemia e como tal faz algum tempo que me preparo para esta nova realidade que no meu caso vai passar por um maior trabalho de estúdio. Por exemplo já temos à nossa disposição os meios e condições para um novo álbum que já comecei a escrever, entre outros projectos, pois :PAPERCUTZ é uma parte do meu trabalho como produtor.

No álbum “King Ruiner”, contamos com três diferentes vozes: Catarina Miranda (aka Emmy Curl), Ferri e Lia Bilinski. Podemos descortinar uma razão artística para essa conexão com o feminino ou existe uma outra simbologia a ser interpretada por esse facto?

Engraçado que devem ser os primeiros a perguntar se existe alguma simbologia na escolha da voz feminina, e até percebo, porque realmente em :PAPERCUTZ essa é uma preocupação constante, tanto na música como nos visuais, os elementos existem porque contam uma história.

Muita música que gosto é concebida por mulheres, acho que talvez seja porque são dotadas de uma sensibilidade mais complexa que a minha, daí que é sempre para mim uma enorme surpresa a falta de representação destas na indústria da música.

Mas o motivo é puramente musical. As minhas vozes favoritas sempre foram cantoras, eu já gravei com vozes masculinas e é algo que não descarto mas as primeiras complementam e equilibram a música que tendo a escrever, muitas vezes de contornos sombrios, e dotam esta de uma ambiência que muitos, e eu concordaria, a descrevem como etérea. E na realidade não é só voz. Muita música que gosto é concebida por mulheres, acho que talvez seja porque são dotadas de uma sensibilidade mais complexa que a minha, daí que é sempre para mim uma enorme surpresa a falta de representação destas na indústria da música.

Bruno Miguel foi estudante da Red Bull Music Academy – uma importante escola na cena electrónica a nível mundial. A cada ano, a RBMA encontra-se numa cidade diferente, o que a torna ainda mais especial e exclusiva.

Marcaste presença nesta academia, em Nova Iorque, no ano de 2013. Poderias descrever-nos como foi essa experiência e como se reflecte no teu percurso musical até ao teu mais recente lançamento?

Foi uma experiência bastante particular porque tive contacto com produtores de vários cantos do mundo, com uma paixão equivalente à minha pelo que fazem e durante algum tempo pudemos partilhar ideias e composição.

Ainda hoje em dia estou em contacto com alguns e ajudamo-nos em decisões criativas e outras mais técnicas. Isto claro fora o contacto e aprendizagem que tive com formadores como Flying Lotus e Four Tet ou de oradores como Eno.

Foram tempos ricos e interessantes que ainda hoje em dia vou processando. Foi sobretudo importante para descobrir que é importante que tanto como produtores ou compositores tenhamos algo diferente para oferecer porque num mundo globalizado existe sempre alguém numa parte longínqua com pequenas e necessárias disrupções dos cânones musicais..

Apesar de vivermos em tempos de confinamento, os :PAPERCUTZ deram-nos a conhecer recentemente algumas participações no álbum “King Ruiner”, criando uma versão deluxe, com remisturas de artistas como Octa Push, Scúru Fitchádu, Throes + The Shine, entre outros.

Como foi essa colaboração com outros artistas portugueses? Poderias dizer-nos de que forma é que os referidos músicos acrescentaram uma personalização musical à arte do :PAPERCUTZ?

Esta pandemia continua a pesar na actividade dos músicos nacionais. E eu claro sinto isso de perto.

Esta edição permitiu-me uma aproximação a estes colegas cujo trabalho admiro e com os quais tive agora a oportunidade de acompanhar o seu processo de criação e espero que outros, com esta edição, possam reconhecer o relevante espectro de nova musicalidade Portuguesa. Todos eles são artistas com quem já me cruzei em diversos eventos e que me marcaram de alguma forma.

O interessante na edição, e tomando o papel como produtor executivo tentei que acontecesse, foi que o resultado final honrasse o trabalho de ambos, ou seja, que as pessoas reconhecessem uma fusão de duas vozes artísticas.

O resultado sinto que é interessante e que leva os temas de “King Ruiner” a outras e novas ambiências. Não foi de todo fácil fazer acontecer esta edição pelos motivos óbvios, uma boa parte do trabalho foi ainda feito com as pessoas, muitas vezes do mesmo projecto, isoladas em confinamento mas penso que serve de prova da resiliência que os artistas mostram em tempos adversos. E isso é algo que me inspira e que me vou lembrar, talvez, para sempre


Halfway There – :PAPERCUTZ c/ Emmy Curl

Podes acompanhar o trabalho do :PAPERCUTZ pelo seu Instagram e Facebook.


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Etiquetas:, , , , , , , , , Last modified: Setembro 2, 2020