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The Legendary Tigerman | Entrevista ao Portugarte

Paulo Furtado, ligado a projectos como The Legendary Tigerman, Wraygunn ou Tédio Boys, foi recentemente entrevistado pelo Portugarte.

The Legendary Tigerman

Paulo Furtado, artista e multi-instrumentista ligado a projectos como The Legendary Tigerman, Wraygunn ou Tédio Boys, é também realizador, actor, argumentista, fotógrafo e compositor de bandas sonoras com vários trabalhos publicados num já extenso e riquíssimo currículo multidisciplinar.

Pauta-se por uma entrega feroz e dedicada às artes em todas as suas dimensões tendo recebido já inúmeros prémios e louvores. Paulo Furtado nasceu em Moçambique, mudou-se para Portugal bastante jovem e desde então tem feito do mundo o seu palco.

Sem fronteiras e a pulso é apontado como uma das grandes referências do rock feito em Portugal.

A arte do The Legendary Tigerman encontra uma transversalidade com o teatro e o cinema. É possível tomar como exemplos o desenvolvimento do teu trabalho musical na peça de teatro “Estro/Watts. Poesia da Idade do Rock” (2020), a realização dos filme “Fade Into Nothing” (2017) e da curta “Amor Quântico” (2019).

Para além disso, aquando do falecimento de Ennio Morricone, mencionaste a sua importante influência musical relativamente ao teu desejo de escrever música para o mundo da “Sétima Arte”.

Apesar da tua arte musical ser a que mais encontra reconhecimento, a nível nacional e internacional, qual é o espaço criativo – ou seja, o acto de tocar ao vivo, criação de bandas sonoras ou realização cinematográfica – que o The Legendary Tigerman sente-se mais confortável e porquê?

Na realidade, eu sempre senti uma necessidade muito forte de expressar de diferentes maneiras, e sempre o fiz, mas talvez de algum modo isso não tenha sido tão público. Fazer música para cinema era um sonho antigo, plantado na adolescência ao ver os westerns de Leone com a música do Ennio Morricone, e é algo que me dá muita satisfação.

Ao mesmo tempo, no cinema, a música não é o mais importante, é só mais uma peça de algo maior, como a fotografia, a direção de arte, argumento, ou qualquer outro departamento, e isso é algo que me agrada muito, encontrar o modo de fazer com que tudo isto ajude e amplifique a visão do realizador, encontrar o som e o ambiente certo para cada filme, isso às vezes é o que demora mais tempo, essa procura de encontrar a sonoridade que melhor serve o filme.

No teatro a procura é muito similar, mas acho que há um espaço maior para deixar uma marcar mais profunda no objecto final.

Por outro lado, realizar é algo muito mais recente para mim, mas agrada-me também pela razões inversas, por todos os departamentos trabalharem em proveito do filme e minha visão. Esta espécie de generosidade artístíca que, para mim, deve existir no cinema, é fundamental, bem como todo o risco e decisões que tens que tomar, baseado no instinto.

E o instinto, é, para mim, talvez o fio condutor de tudo o que faço na arte, é algo muito importante para mim.

O instinto é fruto da experiência, do trabalho, do pensamento, quanto mais trabalhares e mais ensaiares mais o desenvolves, de modo que ele possa atuar a um nível inferior ao do pensamento consciente, o que é fundamental quando tens que tomar decisões artísticas, ou criar, ou compor.

Quanto à música popular, discos, tours, é algo que continuo a sentir muito prazer em fazer, e enquanto for assim e sentir que tenho algo relevante a dizer, continuarei. Mas efectivamente já não é o centro da minha vida profissional.

De acordo com uma recente entrevista, existe uma identificação tua com o punk de Nova Iorque. Assim sendo, e a nosso ver, não é à toa que os Tédio Boys, aquando da sua tour nos Estados Unidos da América, tocaram no mítico clube nova-iorquino CBGB.

De forma é que a tua ética DIY (do-it-yourself), e a crença em não limitar-se a um “dogma punk” influenciou musicalmente aquele que hoje é o The Legendary Tigerman? E de que modo é que a internacionalização do rock dos Tédio Boys influenciou a tua criatividade e expansão musical?

As tours com os Tédio Boys na América foram um momento muito importante para mim, um ponto de viragem, mesmo. Cinco gajos de Coimbra de repente estarem a tocar na festa de Anos do Joey Ramone, ou terem o Jello Biafra a apresentar um concerto no The Fillmore em San Francisco, parecia algo irreal, mas de repente foi possível.

E foi possível porque sonhamos e trabalhamos para isso, para mim foi uma consequência, com aquela faísca de sorte que toda os sonhos precisam para serem concretizados, claro.

Por outro lado, o que aprendi a nível musical na América também mudou a minha vida, a descoberta das afinações abertas, a generosidade de tantos músicos que me foram dando dicas para tocar e o facto de sentir que podia, efectivamente, sonhar com um futuro na música tornou-se real nessas tours.

E tudo o que aprendi, porque de facto era mais eu que tratava das questões logísticas, veio a tornar-se útil mais tarde, claro. Para mim a base é sempre o trabalho, é não tomar nada como certo e nunca trair os príncípios daquilo em que se acredita. E isso é tão real hoje como há vinte atrás.

Depois da saída do baterista Paulo Segadães, e da recente entrada de Katari para o grupo, talvez nos seja possível identificar um possível padrão em comum. À semelhança da tua formação musical no dito mundo “underground”, estes dois bateristas também encontram as suas bases musicais em reminiscências de subculturas urbanas, mais concretamente nos mundos do punk e hardcore (“Sega” tocou com os X-Acto, na década de 90, e Katari é a actual baterista das Anarchicks).

Embora a selecção da baterista tenha sido realizada através de um open call, é apenas uma feliz coincidência esse (possível) padrão ou podemos identificar um fio conductor narrativo subcultural na escolha dos bateristas para o The Legendary Tigerman?

Na realidade, nunca tinha pensado nisso desse modo, mas talvez faça algum sentido, sim… Mas o que me interessa é o modo como a musicalidade das pessoas se enquadra na minha música, e o que pode trazer e até onde a pode levar, e cada pessoa traz coisas diferentes, e isso é muito fixe.

Durante muito tempo o Sega trouxe coisas muito boas para minha música, e neste momento esse caminho está a ser também trilhado de um modo muito bonito com a Katari. É muito bonita essa partilha.

Em agosto do ano passado, comentaste que “sinto que ainda estamos muito longe de chegar à igualdade de género”. Estabelecendo um paralelismo com a tua afirmação, a socióloga Paula Guerra, da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, defende no seu livro, “Palavras do Punk” (Aletheia Editores, 2015), que o existente machismo prevalecente não só ocorre na generalidade da sociedade portuguesa, como também se reflete, e se estende, ao núcleo duro das subculturas urbanas nacionais. Tal ocorre, de acordo com a referida professora, porque estas inserem-se num panorama mais geral da sociedade.

Num mundo de músicos rock maioritariamente masculino, recentemente afirmaste que, relativamente ao anúncio da procura de baterista, “é engraçado que os cinco [candidatos] mais interessantes tivessem sido mulheres”. Assim sendo, assiste-se a um crescimento da afirmação feminina no rock português ou os artistas nacionais estão cada vez mais conscientes da referida desigualdade propondo-se assim a trabalhar, cada vez mais,com diferentes géneros?

Acho o que aconteceu com o #MeToo, o Black Lives Matter e tantas outras coisas, é que de repente a tampa explode e as pessoas têm que escolher um lado… ou é parte do problema ou parte da solução.

Nestes momentos acredito que tens que escolher um lado, e trabalhar dia a dia, mês a mês, ano a ano para que as coisas mudem, até que efectivamente mudem.

Antes de terminar esta entrevista, é-nos quase impossível escapar à questão do COVID-19 e do seu impacto na indústria musical nacional. Em março do corrente ano deste a conhecer que “há muitos músicos e muitos atores e muitas pessoas ligadas à cultura que vivem numa grande precariedade”. Passado alguns meses, a realidade vigente vai-se alterando, aos poucos. Como vês actualmente o estado da indústria cultural portuguesa e o regresso aos palcos dosmúsicos nacionais? Abordando agora a questão relativamente às tuas actuações ao vivo, e comportamento da audiência, como foi a recepção do teu público perante as novas medidas desegurança?

Acho que ainda não percebemos a extensão dos danos desta pandemia, quer em Portugal quer no Mundo. Quantos clubes vão fechar? Quantos músicos vão deixar de ser músicos? E actores, e realizadores?

Honestamente, não estou muito optimista, mas acho muito importante não baixarmos os braços, continuarmos a trabalhar, nem que trabalhemos muito mais.

Mas vai ser muito complicado o futuro, e acho que temos que estar preparados para grandes sacrifícios, e acho muito importante cada um de nós estar muito atento aos nossos, e tentarmos ao máximo sair disto em conjunto, colectivamente.

Não creio que possamos sair desta situação com uma postura individualista ou egoísta. E sem propaganda, fazendo o nosso trabalho, tranquilos, na sombra.

The Legendary Tigerman


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