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João Fortuna e a arte do niilismo tecnológico pós-moderno

João Fortuna reinterpreta diversas temáticas nas suas obras, criando desta forma um artístico paralelismo pós-apocalíptico da sociedade contemporânea.

João Fortuna

Os quadros “La Liberté guidant le peuple” de Eugène Delacroix, “La Mort de Marat” de Jacques-Louis David e “Severa” de José Malhoa possuem um ponto em comum: o mundo “fortuniano”. A reposição de elementos estéticos, mais concretamente das personagens principais das referidas obras, para um destrutivo cenário contemporâneo pós-modernista.

João Fortuna reinterpreta assim tais trabalhos nas suas obras, criando desta forma um paralelismo pós-apocalíptico. A esperança política baseada numa falsa ilusão social acabaram por finalmente revelar-se aos nossos olhos. A nosso ver, o artista cruza os sentimentos partilhados entre o “God Delusion” de Richard Dawkins e o “Net Delusion” de Evgeny Morozov, onde para o ser humano já não existe um determinismo metafísico para o destino da sua realidade e a sociedade encontra-se confinada a um suburbanismo da solidão, complementada por bits e bytes de informação, gadgets e tecnologia.

João Fortuna

Entrevista a João Fortuna

Experienciamos nos dias de hoje uma insensibilidade para com os demais à nossa volta, impulsionada por uma efervescente adesão à tecnologia onde o virtual inevitavelmente substituirá o pessoal. Pelo menos, muitos interpretam o nosso futuro como uma possível realização desse caótico cenário urbano, que acabou por perpetuar uma ideologia vigente de uma dominação digital.

É possível resgatar tais interpretações em obras da tua autoria, como “Desconexão de Marat” (2020) ou “Dilema Insatisfatório” (2020), que nos remetem para esse imaginário. Assim sendo, qual seria o papel da arte, nos dias de hoje, perante esse disruptivo cenário social? Podemos materializá-la como uma forma de resistência ao poder tecnológico e à sua inevitável imposição político-social?

Vivemos realmente uma época bastante conturbada, ou se calhar temos essa sensação devido à facilidade com que a informação se movimenta nos dias de hoje. Numa geração apenas, assistiu-se a um mega salto tecnológico, os ecrãs passam agora a fazer parte da nossa vida e o telemóvel é hoje, mais do que nunca, uma continuidade do nosso braço.

Hoje, óculos de realidade virtual ou arte digital são encontrados em exposições ao lado de pinturas a óleo e esculturas clássicas. No entanto, a arte e os artistas devem ter, mais do que nunca, um papel fundamental na transmissão dos conteúdos apresentados nas suas obras. Vejo a arte como um verdadeiro agente de transformação e, por isso, não consigo criar obras onde a estética do ‘’belo’’ seja o mote de partida para a criação.

Todo o meu trabalho é um reflexo crítico do nosso tempo, maioritariamente um reflexo do lado negro e absurdo do mundo em que vivemos. As obras que crio tornaram-se na minha forma de intervenção e reivindicação e é a partir delas que comunico com o mundo, é o meu ‘’grito’’ congelado em forma de arte.


Em 1793 Jaques Louis David, pinta "A Morte de Marat", onde representa o momento em que o revolucionário francês foi assassinado na sua própria casa. Hoje retiro o personagem do seu contexto e transporto-o para a nossa era. No meu quadro Marat apresenta-se rodeado de lixo eletrônico, com um telefone e um computador em cada mão. Num ambiente industrial apocalíptico, o meu personagem morre porque deixa de existir internet no Mundo. A minha "Desconexão de Marat" é uma reflexão de uma sociedade presa a ecrãs e ao wi-fi. E se de um momento para o outro o Mundo ficasse sem internet??...

De uma forma deveras generalista e abstracta, é do conhecimento geral que uma pessoa é formada pelas suas experiências e pelo ambiente que nos circunscreve. Assim sendo, gostaríamos de abordar o impacto e a influência criativa que a tua área de estudos (licenciatura em História de Arte pela Universidade de Coimbra) exerceu sobre a tua pessoa.

Poderias comentar a tua perspectiva relativamente à forma como a famosa cidade estudantil, e o referido curso artístico, influenciaram as tuas obras e, principalmente, o “núcleo duro” daquele que viria a ser o artista plástico João Fortuna?

História da Arte deu-me as bases e o conhecimento global de tudo aquilo que foi criado no mundo artístico (ocidental). Olho para a licenciatura como um verdadeiro “Trivial Pursuit” do mundo da arte. Mas foi a própria cidade, as experiências, e as pessoas com que me cruzei e convivi durante estes anos que deram a forma e a essência ao meu ‘’génio criador’’.

O microcosmo das Repúblicas de Coimbra foram, sem dúvida, um pilar fundamental para mim, como artista e como pessoa. Foi nestas casas, num ambiente de contra-cultura, onde se respira e transpira resistência, que começou a surgir, não só a vontade, mas a necessidade de comunicar com o mundo.

Na altura ainda não sabia que esta comunicação iria ser feita pelas artes plástica mas era quase incontornável. Tudo explodiu em 2017, desisti do mestrado e do trabalho que tinha em Lisboa para me dedicar de corpo e alma a produzir as minhas primeiras obras ainda num clima de grande incerteza pessoal.


"A Mãe da Solidão" (70x60, 2019) apropriação da obra icónica "Whistler's Mother" de 1871.
Nesta reflexão sobre a solidão apresento a "Mãe" sozinha numa sala cheia. Esta sala onde as paredes se preenchem de memórias esquecidas, de santos e cristos que nada salvam, de livros e revistas que mais não são do que adornos, porque a "Mãe", como tantos outros, nunca aprendeu a ler. Sentada junto á sua mesa repleta de medicamentos, olha fixamente para a sua única companhia- a televisão. Lá fora, o mundo moderno, rápido, colorido e brilhante segue como se nada fosse, pois o mundo também se esqueceu dela.
Terminei este quadro em Dezembro do ano passado sem saber o que nos esperava em 2020. Hoje, palavras como isolamento, distanciamento e solidão enchem os telejornais. Mas será que não foi sempre assim? Em 2017 o Censo Sénior revelou que 45.516 idosos em Portugal se encontravam em situação de isolamento ou solidão.

Podemos notar que, abordando especificamente a tua obra “Liberdade, liberdade…” (2020), encontra-se retratada a tua companheira Rita no canto inferior direito do quadro.

É comum haver na tua arte uma espécie de atenção brindada àqueles que procuram por easter eggs (terminologia utilizada para definir um importante determinado detalhe simbólico que normalmente passa despercebido à grande maioria) ou a representação de pessoas, que te são muito queridas, é um feliz acaso na obra em questão?

Neste tipo de obras onde faço toda a parte fotográfica dos personagens principais e dos cenários, faço-me sempre valer das pessoas que me rodeiam e me são próximas para que sejam os meus modelos fotográficos.

No quadro ‘’Liberdade, liberdade…’’ não só aparece a minha companheira Rita, como aparecem todas as pessoas com quem partilhava casa nesse ano, e também eu me tornei personagem do meu próprio quadro (sou a figura mais à esquerda). Olho para essa obra como um retrato de família. Sempre que consigo introduzo uma fotografia minha nas minhas obras numa espécie de jogo do “Onde está o Wally?”.


| Liberty, liberty... | 85x75 |
°Em 1830, Eugène Delacroix, pinta "A Liberdade guiando o povo". Hoje retiro os personagens do seu contexto e transporto-os para a nossa era. Neste novo contexto, a minha liberdade lidera uma revolução universal, infinita e sem barreiras geográficas. Um grito comum que nunca se faz ouvir.

Também não nos foi indiferente um outro pequeno pormenor: o hoodie dos Dead Kennedys que tens na tua foto de perfil das redes sociais. Analisando esteticamente esta contra-cultura, e mais particularmente o respectivo grupo musical norte-americano, encontramos uma vertente artística estética que remonta a influências dadaístas, collage e cut-and-paste.

O uso de tal vestimenta é uma simples coincidência com o desenvolvimento do teu trabalho ou podemos descortinar algum género de influência directa da contra-cultura punk nas tuas obras?

Essa camisola com que estou vestido sofreu uma serie de ‘’furtos’’ em cadeia, usurpei-a de casa de uma amiga minha que por sua vez já a tinha usurpado a outro amigo nosso, e penso que o ciclo desta vestimenta foi essa. Na altura estava com ela vestida enquanto que fotografava uma serie de quadros que tinha acabado de fazer. Foi pura coincidência.

Não me sinto influenciado pelo movimento ou cultura punk. No entanto existem denominadores comuns e valores partilhados, como o antifascismo, o autodidatismo, a oposição aos mídia tradicionais, a ânsia por liberdade ou ideias apartidárias. Mas penso que todos estes valores partem principalmente de uma consciência individual e não tento de um movimento ou culturas e sub-culturas.


| Common Vision - Blind Justice. | 40x40 | 2018 |
As lutas que esperam mudanças, os gritos que nao são ouvidos, as vozes que são caladas. Uma justiça de olhos vendados e de ouvidos tapados.

Estabelecendo um novo paralelismo musical, relativamente ao teu trabalho, contamos com a presença do guitarrista dos LVI, Luís Nunes, no Portugarte há uns dias atrás. Ficámos assim conhecer a parceria estabelecida entre o seu novo registo musical e a tua arte.

Poderias comentar-nos qual a direcção pela qual pensas orientar a criação desta tua nova obra artística para os LVI que, neste caso, conta com uma determinada influência musical como ponto de partida?

Este convite do Luís Nunes para elaborar a capa do novo álbum de LVI é um desafio para mim enquanto artista plástico. É algo que nunca fiz mas aceitei de imediato a proposta, primeiro porque me identifico bastante com a sonoridade de LVI e porque as musicas ‘’Asa’’ e ‘’Sónika’’ foram uma constante no meu estúdio enquanto criava alguns dos meus quadros.

Não posso dizer que seja um trabalho apenas meu, mas sim, de um conjunto de ‘’génios’’ criadores que vão ser condensados numa só imagem. Através da capa tenho que expor duas identidades, a da banda e a minha.

A minha identidade artística vai estar implícita através da técnica (colagem em profundidade) onde os layers de imagens se vão subtraindo da capa até à contra-capa, por sua vez a identidade LVI vai estar presente no conteúdo e simbolismo das imagens escolhidas. Tem sido um trabalho em conjunto e em constante diálogo entre as partes. Acho que o resultado final vai ser excelente.



Por fim, é impossível deixar de congratular-te pelas tuas maravilhosas obras, que afiguram um respeitado consequente crescimento e desenvolvimento profissional. Algumas das tuas exposições incluem a presença no Guimarães noc noc, Espaço Exibicionista e MAPS – Mostra de Artes Performativas. Para todos/as aqueles/as que aspiram ser futuros artistas plásticos, terás alguns conselhos ou palavras a dizer?

Bem… Não tenho grandes conselhos até porque ainda sou novos nestas andanças. Candidatei-me a muitas exposições, mostras e concursos de arte e fui recusado muitas vezes. Aliás, fui recusado a maioria das vezes; mas o truque passa por acreditares no teu trabalho e ser persistente.

Outra coisa que me ajudou bastante foi passar a maior parte do meu tempo no meu estúdio, passou a ser o meu lugar de eleição, mesmo que não esteja a criar fisicamente estou a criar ideias ou possíveis peças, estou a viajar dentro do meu próprio universo e penso que isso é um factor muito importante.


| Criação da Guerra Infinita | 2020 | Detalhes.|
Uma guerra que começou em 2011 e que envolveu vários países de todo o mundo. São cerca de 6,3 milhões de refugiados, 550 mil mortos das quais 20 mil são crianças. A guerra continua e o Mundo continua a olhar para o lado, " é apenas mais uma guerra..."
(obra criada para integrar a minha exposição individual - @espacoexibicionista_gallery)

Podes conhecer mais sobre as obras de João Fortuna aqui e aqui.


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