Written by: Artes Livro Mata-Ratos - "Cães de Cristo"

Livro Mata-Ratos | “Cães de Cristo” | Capítulo III

Bem-vindos/as ao III capítulo do livro dos Mata-Ratos, “Cães de Cristo”. Estes são pequenos contos literários e fantasiosos, baseados nas canções da banda.

Livro Mata-Ratos

Sejam bem-vindos/as ao terceiro capítulo do livro dos Mata-Ratos, “Cães de Cristo“. Estou muito feliz de o feedback, até ao dia de hoje, ter sido muito positivo. Vamos lá ver se eu não arruino isto tudo com o teceiro conto! Dizem que os tornados ciclónicos literários são muito comuns. Eu não sei, para dizer a verdade. E espero que não me apareça nenhum esta semana!

Como há sempre a (grande probabilidade) de haver pessoas que não leram o primeiro e/ou o segundo capítulo, ou que não têm a mínima ideia do que estou a falar. Assim sendo, deixo abaixo alguns links: uma introdução e contextualização deste livro, que nunca chegou a ser editado e também o primeiro e o segundo capítulo do mesmo! Recomenda-se a leitura!

Mas o que diabos está este gajo a falar? O que é este “quase-livro?”

Capítulo I – “És um homem ou és um rato?”

Capítulo II – “Rei da Noite”


Como funciona o livro?

Aviso desde já que esta não é uma biografia da banda.

Este livro são PEQUENOS contos literários e fantasiosos, baseados nas canções dos Mata-Ratos. Este projecto, está dividido por vários capítulos, que serão publicados a cada sexta-feira.

Cada capítulo é narrado de forma independente, sempre na primeira pessoa de um diferente personagem. Existe fio condutor que, aos poucos, é criado entre os diferentes 33 contos. Por fim, é dado um sentido comum a todos.

Ou seja, entre as diferentes histórias existe um universo “mata-ratiano”, que é descortinado de forma lenta mas coesa, a meu ver. Neste caso, no “Cães de Cristo” (o então título do livro, que foi o primeiro nome dos Mata-Ratos), cada acontecimento é um mundo por si só e os personagens vivem todos no mesmo universo, embora em espaços distintos.

Não quis limitar-te a um só género de narrativo. Cada capítulo é único por si só. Admito que a leitura, ao início, possa ser um pouco confusa e difícil de interpretar. Mas, aos poucos, vai-se entranhando. Tal como a música dos Mata-Ratos, há escritos agressivos, sexuais, outros divertidos, sarcásticos e até ironias que, à primeira impressão, possam fazer pouco sentido.

Escolhi assim escrever textos “comuns”, passando por poesia, manifestos, telegramas, entre outras metamorfoses musico-literárias.

Gosto muito da ideia de um universo literário. E ainda mais, de um universo literário punk.


Aviso

Tal como as letras dos Mata-Ratos, algumas partes dos textos possam parecer “vulgares” e indecentes. Mas para quem conhece o grupo, e principalmente o seu conteúdo lírico, isto não é nada de novo.


Contextualização

Para ajudar um pouco à compreensão de cada capítulo, decidi incluir uma pequena explicação sobre o contexto onde o personagem se encontra, a música na qual o capítulo foi baseado e a respectiva letra. O livro conta com 33 capítulos porque, em 2015 (altura em que realizei este projecto), esse era o número de anos de existência da banda.

Neste terceiro capítulo, encontramos um texto baseado no famoso tema “Armando É Um Comando” (“Rock Radioactivo”, EMI, 1990). Desta forma, entendemos que o narrador do conto é o personagem “Armando” (antes de ingressar na vida militar). Este encontrou-se com o “Rei da Noite” (“És um homem ou és um rato?”, Ataque Sonoro, 2004) no segundo capítulo, tendo sido o mesmo o comprador da droga que o “Rei” lhe providenciou.

Esta narrativa toma lugar no dia seguinte ao II Capítulo, ou seja, na manhã depois de uma louca noite de Armando na “Disco” (a banda sonora da discoteca é o sample electrónico de música dance que tem o seu início do tema “Rei da Noite”). Este conto também com a presença da namorada do personagem principal, a Arminda.

Podem ainda contar com 2 easter eggs: a famosa citação do poeta Fernando Pessoa, “tudo vale a pena quando a alma não é pequena“, e uma breve referência à mítica banda punk rock de Alvalade da década de 80, os Kú de Judas.

Por último, a referência à Musgueira encontra uma relação directa com a música dos Mata-Ratos, “Musgueira Chainsaw Massacre” (“Xu-Pá-Ki 82-97”, Drunk Records & Fast’n’Loud, 1997).

Para os leitores brasileiros, aclaro a gíria portuguesa da linguagem de rua:

  • Greg – vómito
  • Gregar – o acto de vomitar
  • Cantar o Gregório – alusão ao acto de vomitar, com uma clara irónica referência religiosa
  • Nite – cigarro
  • Mocas – termo financeiro relativo à moeda euro (e, nos dias de antes, à moeda portuguesa: escudo): 50 euros seriam assim 50 mocas.
  • Faxfavô – A forma como nos soa a típica forma portuguesa de dizer “faz favor”.

Muy bien! Now what?

Este é o terceiro capítulo do livro e estou ainda a ajustar e moldar a forma como seguir-se-ão os restantes. Deixa-me comentar-te que a introdução ao livro é quase tão extensa como próprio o capítulo em si. Isto deve-se ao facto que, na minha humilde opinião, o contexto e explicação destes pequenos contos são uma parte inerente e crucial do livro.

A meu ver, no equilibrio geral das coisas, a contextualização encontra o mesmo grau de importância que os capítulos. Um não pode co-existir sem o outro, de forma a prevalecer um total entedimento da escrita “mata-ratiana“.


Música “Armando É Um Comando”


Letra “Armando É Um Comando”

Armando saiu da aldeia
Foi para a tropa arranhar
É agora um maçaricio
está sempre a apanhar

O sargento é uma besta
Passa a vida a gritar
Armando quer chorar
Já não pode aguentar

Armando é um comando
não há que o negar
foi para a tropa
num homem se tornar

Sempre a limpar latrinas
Passa a vida a sonhar
Com a namorada Arminda
Com as quecas que vai dar

Armando é cão de guerra
Já aprendeu a ladrar
Arma sempre confusão
Até a P.E. o levar

Armando é um comando
não há que o negar
foi para a tropa
num homem se tornar


CAPÍTULO III – “Armando É um Comando”

Ai Jesus. A minha cabeça está a 1000. Parece que vou gregar. Os vómitos sobem-me à garganta e… é agora. Cá está! Aconteceu. Apenas tive tempo para tirar a cabeça da almofada, segurar-me à berma da cama e vomitar para o chão deste meu humilde quarto. Afinal, é esta a tão doce sensação de cantar o Gregório aos deuses do santo Dionísio. A música deste acto recorda-nos os cães de cristo a uivar aos céus. Afinal, mesmo estando ainda bêbado, sou um poeta. Nem Fernando Pessoa faria melhor.

Meus Deus, com a ressaca que tenho nem consigo sair da cama. Apalpo o chão de forma cega e encontro um cigarro. Está um pouco molhado do greg, mas é melhor do que nada. Sorte a minha que me deitei com a roupa, pois nem tive forças para a tirar e… Que sorte! Tenho um isqueiro no bolso. Mal acendo o nite, olho para o lado e está ali a Arminda. Mas ela veio comigo para casa? Nem me lembro de a ter encontrado ontem na disco

Começa a reclamar para onde vou deitar as cinzas do cigarro. Para quê queixar-se a esta hora? Foda-se. O chão é um cinzeiro bué da grande. Com a cabeça atordoada, levanto-me e pego num copo com algum whisky de ontem. Aguado, por certo. Dou um valente trago, enquanto contemplo as paisagens da aldeia. A Arminda reclama muito do meu estilo de vida mas eu ‘tou bem. Segunda-feira à tarde, sem trabalho, ressacado e com a namorada ao meu lado. Ouço ainda qualquer coisa sobre as 50 mocas que gastei ontem à noite, mas valeu a pena. Afinal, tudo vale a pena quando a alma não é pequena.

Saio do quarto pois não estou mais para ouvir a Arminda. Tropeço no cachorro e, meio a cambalear, arranjo forma de descer as escadas. Agarro-me ao corrimão, não vá o diabo tecê-las. Chego à sala, deito-me no sofá e ligo a televisão. Neste fim do mundo, não há barulho que me possa incomodar. Esta terra pacífica, neste cú de judas, um gajo encontra tranquilidade. Ao adormecer, batem-me à porta de forma vigorosa.

“Correios!”, gritam.

Faço silêncio para ver se ele se vai embora, mas o carteiro conhece-me e sabe perfeitamente que estou em casa. A esta hora estou a curar a ressaca, claro. É esta a minha rotina e todos sabem-no. Por isso, ele insiste tanto, ou não esse fosse o trabalho desse pobre diabo, que me levanto e abro-lhe a porta.

Ora muito boa tarde!“.

Boa tarde“, respondo com um bafo alcoolizado.

Carta registada. Assine aqui faxfavô.

Fico surpreendido. A mim ninguém me envia cartas. E muito menos registadas. Olho rapidamente para o remetente: Ministério da Defesa. Ao virar as costas, o carteiro vai-se embora e nem fecho a porta de casa. Entra uma forte brisa que parece servir de premonição para a desgraça que se aproximava. Começo a ler a carta:

Caro Armando, está convocado para servir o Estado Português. Deverá apresentar-se no Quartel da Musgueira no quarto dia do presente mês pelas 14h.”

Já me fodi. Puta que me pariu.

Fim.


Publicarei cada conto uma vez por semana no Portugarte, à sexta-feira, em honra à música Bezana Ska, onde o pessoal sai precisamente nesse dia para embededar-se e divertir-se.

A ideia deste livro é precisamente esta. Criar uma bebedeira colectiva literária, onde somos imergidos pelo álcool das boémias palavras e música dos Mata-Ratos. Vemo-nos na tasca! Até breve compas!


Sugestões, caricas, cartas de amor ou de “sentir o ódio”? É escrever-me!

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Last modified: Julho 24, 2020