PauloWritten by: Brasil Ilustração

O hip-hop e a política da ilustração de Ana Lua

Ana Lua

Ana Lua é uma ilustradora paulista, que vive atualmente em Niterói (Rio de Janeiro). Tal como variados/as ilustradores/as do género, Lua teve como o seu ponto de partida a influência de tais artistas como Basquiat, Van Gogh e Frida Kahlo. Mas da mesma forma que os infantes acabam por se tornar adultos e independizar-se relativamente àqueles que os criaram, a nossa artista acabou por fazer o mesmo em relação àqueles/as que a influenciaram artísticamente e, actualmente, possui um lindo traço único e distintivo.

Na verdade, apesar de possuir a referida independência, a artista acaba por beber a inspiração da arte independente e de rua. As suas amigas e amigos são a principal fonte de motivação para a materialização da sua ilustração.

E, para os/as mais atentos/as, é possível identificar em Ana Lua uma essência “basquiatiana”. Tal como as vivências urbanas da década de 80 do artista nova-iorquino, a nossa artista encontrou no hip-hop do interior de São Paulo uma cultura que permeou o seu trabalho.

Para Ana Lua, a arte cumpre um papel disruptivo em relação ao normalizado da nossa sociedade

Se existe uma opressão sistémica em relação a determinados grupos, para a nossa artista é necessária uma resistência que combata o preconceito.

Torna-se assim necessário filtrar o ódio do amor, através da vocalização dos grupos renegados socialmente. Sem voz, não existimos. Sem arte, não somos ninuém.

“Eu vejo no hip-hop tudo aquilo que eu acredito que a arte deveria ser: uma forma de dar voz aos indivíduos marginalizados pela sociedade, uma forma de discutir assuntos necessários e importantes de forma a que sejamos de fato ouvidos”

É perfeitamente visível uma influência “foucaultiana” na arte de Lua. “Onde há poder, há resistência”, proferiu Foucault. E não será a arte ilustrativa de Lua a materialização simbólica de uma resistência político-artística?

Um importante traço de Lua é não aceitar dogmas, ainda que estes existam (e muitas vezes não são admitidos) dentro das sub-culturas. A ilustradora reconhece que existe ainda trabalho a ser realizado dentro do seio do movimento hip-hop, mas não se desmotiva apesar das imperfeições vigentes:

“Apesar das minhas críticas em relação ao machismo nesse meio, eu admiro tudo o que o hip-hop representa. Desde a estética até às mensagens que ele procura passar. Por isso é que este movimento é uma influência tão grande para mim: porque me mostrou que eu posso usar a arte de forma política”.

Nos dias de hoje, um dos variados interessantes aspectos de Lua é, a nosso ver, uma interpretação sociológica da realidade, que acaba por se misturar com o seu próprio traço distintivo. Se Simone de Beauvoir, no “Segundo Sexo” (1949) mostrou ao mundo a desconstrução existencialista do género, para Ana Lua tal não será suficiente.

Temos que ir mais ao fundo da questão.

É necessário invocar um sentimento que em tudo se assemelha a Angela Davis no seu clássico literário “Mulheres, Raça e Classe” (1981). Assim sendo, Lua reconhece a importância da sociologia nas vivências do dia-a-dia e os conflitos sociais existentes entre os diferentes grupos.

Se é possível identificar o “habitus” de Bordieu na nossa sociedade, torna-se possível reconfigurar os papéis atribuidos. As relações de poder não são estáticas e podem ser mutáveis. Estabelecendo um paralelismo sociológico com a ilustração da nossa artista, se os NWA são um dos grupos de hip-hop estadunidenses mais importantes, com respeito ao conteúdo lírico interventivo, para Lua isso não chega. Será essa umas das razões pelas quais a ilustradora reintrepretou uma famosa foto do referido grupo de hip-hop, colocando assim mulheres na sua releitura artística.

É necessário empoderar a mulher de forma a que vejamos que tais “pedestais” musicais podem, e devem, ser ocupados por mulheres. A romancista Toni Morrison tem como principal cararacterística literária a redacção de realidades vividas por negros da clase trabalhadora, sendo que o lugar na narração é predominantemente ocupado por mulheres negras. A nossa ilustradora segue o mesmo caminho na criação da sua ilustração, sendo que as narrativas vigentes são, muitas vezes, ocupadas pelo mesmo tipo de personagens de Toni Morrison.

Lua amplifica a política na voz negra feminina brasileira.

“Acho que gosto sempre de citar como sempre foi difícil para mim acessar alguns espaços artísticos predominantemente masculinos ou ocupados por artistas que não desenvolvem uma arte política”

Para além disso, Lua reconhece a importância de um canal comunicacional independente para todos os/as artistas que não se inserem no circuito comercial mainstream. Insurgindo um manifesto à criação de um lugar próprio, a artista explica que:

“Por isso é que aprendi que é importante que nós que somos artistas ‘algumas coisa’ – artistas, mulheres, artistas lgbts, artistas pretos, e assim por diante – desenvolvamos nossa própria rede de apoio!”

No mundo digital, Ana Lua estreará a sua loja virtual no dia 20 de julho. Por último, a ilustradora possui 3 filtros no Instagram: flames, shiny e yellow/blue que podem ser encontrados no seu perfil.

É importante realçar que, para além da criação da sua arte independente, a Ana Lua também aceita pedidos personalizados. Para o efeito, podes contactá-la aqui.

(Visited 11 times, 1 visits today)
Etiquetas:, , , , , , , , , , , , , , , Last modified: Julho 15, 2020